Abstract:
RESUMO: A ditadura militar brasileira (1964-1985) estruturou um complexo aparato repressivo de controle político e neutralização de dissidências, operado por órgãos de segurança e informação que institucionalizaram o Terrorismo de Estado. No Piauí, esse cenário manifestou-se por meio de vigilância ostensiva, perseguição e criminalização de indivíduos rotulados como subversivos pela polícia política. Esta dissertação, portanto, investiga as trajetórias de sujeitos piauienses que, diante do acirramento da violência política nas décadas de 1960 e 1970, foram compelidos ao exílio como estratégia de sobrevivência pessoal. O objetivo central é analisar os caminhos do exílio – as saídas, as chegadas e os retornos – compreendendo-o como um processo decorrente das práticas de Terrorismo de Estado. Para tanto, a pesquisa perpassa diversos recortes espaciais, articulando as dinâmicas políticas locais às pressões do cenário nacional e às vivências transnacionais enfrentadas pelos sujeitos no
exterior ou em outras regiões do país. Metodologicamente, a pesquisa apoia-se em um corpus documental diversificado: e os Inquéritos Policiais Militares (nº 16, 185, 340, 349 e 705); os jornais O Dia e O Estado do Piauí; livros de memória (biografias) e depoimentos orais que conferem subjetividade ao trauma, fundamentais para compreender a lógica punitiva do regime. O arcabouço teórico fundamenta-se nos debates sobre Terrorismo de Estado, repressão política, ditadura militar e estado de exceção, mobilizando as contribuições de Maria Helena Moreira Alves (2005), Enrique Serra Padrós (2005), Nilson Borges (2003), Rodrigo Patto Sá Motta (2021) e Denise Rollemberg (1999), articulando-se também com as reflexões de Giorgio Agamben (2004) acerca do estado de exceção como dispositivo jurídico-político que suspende garantias legais e legitima práticas de violência estatal. O trabalho dialoga ainda com as discussões sobre memória, testemunho e violência de Estado, presentes em Márcio Seligmann-Silva (2003), Michel Pollak (1989) e Beatriz Sarlo (1997). ABSTRACT: The Brazilian military dictatorship (1964–1985) established a complex repressive apparatus aimed at political control and the neutralization of dissent, operated by security and intelligence agencies that institutionalized State Terrorism. In Piauí, this context manifested through overt surveillance, persecution, and the criminalization of individuals labeled as subversive by the political police. This dissertation investigates the trajectories of Piauí natives who, faced with escalating political violence during the 1960s and 1970s, were compelled into exile as a strategy for personal survival. The central objective is to analyze the paths of exile—departures, arrivals, and returns—understanding exile as a process resulting from the practices of State Terrorism. To this end, the research encompasses different spatial contexts, articulating local political dynamics with national pressures and the transnational experiences faced by these individuals abroad or in other regions of Brazil. Methodologically, this research is based on a diverse documentary corpus, including Military-Police Inquiries (Nos. 16, 185, 340, 349, and 705); the newspapers O Dia and O Estado do Piauí; memoirs; and oral testimonies that provide subjectivity to trauma and are fundamental to understanding
the regime's punitive logic. The theoretical framework is grounded in debates on State
Terrorism, political repression, and the state of exception, drawing on the contributions of
Maria Helena Moreira Alves (2005), Enrique Serra Padrós (2005), Nilson Borges (2003),
Rodrigo Patto Sá Motta (2021), and Denise Rollemberg (1999). It also engages with Giorgio Agamben’s (2004) reflections on the state of exception as a juridical-political device that suspends legal guarantees. Finally, the study dialogues with discussions on memory and testimony found in the works of Márcio Seligmann-Silva (2003), Michel Pollak (1989), and Beatriz Sarlo (1997).