Abstract:
RESUMO: A Pedagogia da Alternância alinha-se à luta histórica da classe trabalhadora ao propor um projeto educativo democrático, comprometido com a justiça social e a humanização. Por meio de um currículo que valoriza as identidades e as culturas do povo do campo, ela fortalece a construção de uma sociedade pautada pela equidade
social e pelo reconhecimento das diversidades. Desse modo, o trabalho discute sobre o desenvolvimento do currículo da Casa Familiar Rural Vivendo a Esperança, no município de São João do Sóter - MA, buscando compreender como os tensionamentos entre os diferentes projetos em disputa no campo refletem nas práticas curriculares. A pesquisa tem como problema: como os tensionamentos entre os diferentes projetos em disputa no campo (agronegócio e agricultura camponesa) refletem nas práticas curriculares da Casa Familiar Rural Vivendo a Esperança? Neste sentido, temos como objetivo geral: analisar como os tensionamentos entre os diferentes projetos em disputa no campo refletem nas práticas curriculares da Casa Familiar Rural Vivendo a Esperança. A pesquisa fundamenta-se no método Materialismo Histórico-Dialético, bem como nas contribuições teórico-metodológicas da pesquisa-ação crítica. O processo de construção dos dados foi realizado através dos “Círculos Formativos”, inspirados nos “Círculos de Cultura” de Paulo Freire. Além disso, trabalhamos com a análise do Projeto Político Pedagógico (PPP) e o Plano de Formação/Plano de Curso. Na análise das informações, utilizamos a análise de conteúdo, que envolveu a seleção e organização dos documentos, a categorização dos dados, a produção de inferências e, por fim, a composição do relatório final. Os resultados da pesquisa apontam que o
projeto educativo da CFRVE é alvo de diversos interesses, os quais se antagonizam em relação aos seus princípios políticos, econômicos e educativos. O avanço do agronegócio no Maranhão, materializado pela compra de terras, pelo isolamento e destruição de comunidades e dos ecossistemas no território de São João do Soter — onde se localiza a Casa de Familiar Rural Vivendo a Esperança (CFRVE) —, tem gerado tensionamentos nas práticas curriculares. Ao disputarem o currículo, os representantes do agronegócio recorrem ao assédio à gestão escolar na
tentativa de promover uma reformulação curricular que atenda aos seus interesses, colocando em risco a perspectiva de uma formação integral, humana e crítica. Neste contexto, por um lado, os camponeses e agricultores demonstram desânimo em relação às políticas públicas voltadas para o desenvolvimento do campo; por outro, os
educadores, educandos e famílias expressam desejos distintos quanto à formação escolar. Coloca-se em questão, assim, o ensino para a permanência dos jovens no meio rural — diante de uma agricultura camponesa tradicional e precarizada — ou a formação dos jovens para atuarem no agronegócio, sob condições desumanas de trabalho. A CFRVE sofre ainda com a necessidade de implementação de novas práticas curriculares que possam dialogar de forma mais específica com alguns componentes curriculares. Os educandos desejam que novas práticas curriculares sejam implementadas em áreas como a apicultura. No entanto, veem com certa desconfiança os projetos que têm como princípio a produção sustentável e a agricultura camponesa como modelo de desenvolvimento. Assim, seguem buscando empregos nas fazendas do agronegócio, atraídos por sua sedução midiática. A disputa acontece em um plano global, regional e particular, lançando suas sementes entre os profissionais da CFRVE, assim como, entre as famílias. Ela se manifesta em um conflito de interesses onde, de um lado estão os sujeitos que põem em movimento o projeto educativo da CFRVE e, de outro, uma parcela que se opõe a esse projeto em termos de ideias, bem como na aplicação e no desenvolvimento das mediações da pedagogia da alternância. Apesar desse cenário adverso, o currículo da CFRVE convoca os sujeitos a uma possibilidade real e coletivamente responsável: a defesa de uma formação integral que percebe a educação como compromisso e ato político. Nessa perspectiva, as dimensões humana, técnica, crítica e política confluem para a transformação do meio e o fortalecimento da agricultura camponesa, por meio de projetos e práticas vinculados a uma matriz agroecológica. Essa formação também dialoga com as perspectivas críticas de currículo, que auxiliam na produção de um “conhecimento poderoso”, capaz de desvelar as estruturas e o funcionamento da sociedade capitalista, bem como de formular alternativas materiais de enfrentamento ao cenário necrófilo imposto pelo agronegócio no campo. Além disso, o currículo da CFRVE contribui diretamente para o fortalecimento das lutas dos movimentos
sociais do campo por direitos historicamente negados — como terra e educação — e para a consolidação do histórico projeto de emancipação da classe trabalhadora no campo. ABSTRACT: The Pedagogy of Alternance aligns with the working class's historical struggle by proposing a democratic educational project committed to social justice and humanization. Through a curriculum that values the identities and cultures of rural populations, it strengthens the construction of a society grounded in social equity and the recognition of diversity. Thus, this study discusses curriculum development at the *Casa Familiar Rural Vivendo a Esperança* (CFRVE) in the municipality of São João do Sóter, Maranhão, seeking to understand how tensions between competing rural projects — specifically agribusiness and peasant agriculture — are reflected in curricular practices. The research addresses the following problem: how do tensions between competing rural projects (agribusiness and peasant agriculture) manifest in the curricular practices of the *Casa Familiar Rural Vivendo a Esperança*? Accordingly, the general objective is to analyze how these tensions are reflected in the institution's
curricular practices. The research is grounded in the Historical-Dialectical Materialism method and the theoretical-methodological contributions of critical action research. Data collection was conducted through "Formative Circles," inspired by Paulo Freire’s "Culture Circles." Additionally, the study involved an analysis of the Political-Pedagogical Project (PPP) and the Training/Course Plan. Data analysis employed content analysis, encompassing document selection and organization, data categorization, inference generation, and the final report's composition. The results indicate that the CFRVE’s educational project is the focus of various conflicting interests that stand in opposition to its political, economic, and educational principles. The expansion of agribusiness in Maranhão — manifested through land acquisition and the isolation and destruction of communities and ecosystems in the territory of São João do Soter (home to the *Casa de Familiar Rural Vivendo a Esperança*— (CFRVE) — has created tensions regarding curricular practices. In their bid to influence the curriculum, agribusiness representatives resort to harassing school administrators in an attempt to reshape the curriculum to serve their own interests, thereby jeopardizing the prospect of a holistic, humanistic, and critical education. In this context, peasants and farmers feel disillusioned with public policies aimed at rural development, while educators, students, and families hold differing views on the nature of the schooling provided. The central issue becomes a choice between education that fosters young people's continued presence in rural areas — amidst a precarious, traditional peasant agriculture — and training them for employment in agribusiness, often under inhumane working conditions. The CFRVE also faces the challenge of implementing new curricular practices that better align with specific subject areas; students, for instance, want to see new practices introduced in fields such as beekeeping. However, they view projects based on sustainable production and peasant agriculture as a development model with a degree of skepticism. Consequently, they continue to seek employment on agribusiness farms, drawn by the industry's media-driven appeal. This contest plays out on global, regional, and local levels, taking root among both CFRVE professionals and the families involved. It manifests as a conflict of interest: on one side stand those driving the CFRVE educational project, while on the other is a faction opposing the project — both ideologically and regarding the implementation and development of the "pedagogy of alternation" and its mediating practices. Despite this challenging landscape, the CFRVE curriculum invites participants to embrace a real, collectively shared possibility: the defense of a holistic education that views learning as both a commitment and a political act. From this perspective, human, technical, critical, and political dimensions converge to transform the local environment and strengthen peasant agriculture through projects and practices rooted in agroecology. This educational approach also engages with critical curriculum perspectives, helping to generate "powerful knowledge" capable of revealing the structures and workings of capitalist society, while formulating tangible
alternatives to confront the death-oriented ("negrophilic") scenario imposed by agribusiness in rural areas. Furthermore, the CFRVE curriculum directly supports the struggles of rural social movements for historically denied rights — such as access to land and education — and reinforces the long-standing project of working-class
emancipation in the countryside.