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RESUMO: Esta pesquisa tem como objetivo apresentar uma análise do pensamento de Michel Foucault sobre o exame. É possível verificar a prática do exame como dispositivo de produção da verdade no contexto disciplinar, biopolítico e de si foucaultiano? A hipótese desta pesquisa, que pretende ser nossa tese, é que o exame se constitui como produtor da verdade disciplinar, de si e biopolítica, mesmo que Foucault não tenha feito nenhuma referência explícita ao exame no contexto da sociedade de normalização. Isto deve-se à exigência de produção da verdade para que haja governamentalidade. As investigações sobre a questão partem de vigiar e punir, que é a única obra que Foucault apresenta uma abordagem detalhada do exame. Porém, foram consultadas as obras do filósofo que têm, direta ou indiretamente, ligação com a questão do exame enquanto operador da relação saber e poder. Em A vontade de saber (História da sexualidade I), Foucault estabelece o ponto de junção entre o controle pela verdade disciplinar (do indivíduo) e o controle pela verdade de normalização (da população). Trata-se das disciplinas do corpo e das regulações da população, que Foucault classificou como técnicas de controle disciplinar, uma anátomo-política do corpo humano, e como técnicas reguladoras da biopolítica da população. Nas duas obras citadas acima Foucault faz referência direta à prática do exame, porém, nas obras consideradas biopolíticas, Em defesa da sociedade; Segurança, território, população; Nascimento da biopolítica, o filósofo não se referiu diretamente ao exame. Verificada esta situação e a exigência da produção da verdade para que haja governo em todo e qualquer aspecto da vida, a pesquisa visa demonstrar que o exame está presente na sociedade biopolítica tanto quanto na sociedade disciplinar. A pesquisa aborda a produção da verdade a partir das práticas do inquérito e do exame, destacando a prevalência da segunda sobre a primeira na produção da verdade no contexto disciplinar-normalizador. A prática do inquérito realiza a reconstituição de dados e fatos passados para produzir a verdade, característica da sociedade feudal. Mesmo que o saber de inquérito tenha sido importante para constituição do Estado e das ciências empíricas, demonstra-se que uma nova arte de governar surge no século XVIII e o inquérito perde o protagonismo, que passa à prática do exame. O exame, a princípio, com suas técnicas de vigilância, disciplina e norma constitui-se como dispositivo disciplinar dos indivíduos, tornando-os dóceis e úteis; posteriormente, com as mesmas técnicas de controle, o exame se constitui como um dispositivo importante na produção da verdade para controle da população. É a entrada da vida na história, que está vinculada ao modo como a verdade é produzida a partir de então, pelo exame. Trata-se da governamentalidade biopolítica, caracterizada pela prática do liberalismo/neoliberalismo, cujo princípio é sempre reclamar do excesso de governo. Ainda, no contexto da governamentalidade, a tese procura demonstrar a maneira como Foucault apreende a governamentalidade de si ao analisar as técnicas e práticas de si pagãs da cultura da Antiguidade greco-romana. Nesse sentido, procura-se apreender na análise de Foucault a ascese cristã adaptando o exame de consciência da ascese pagã aos seus interesses, retirando a autonomia dos indivíduos e impondo-lhes a renúncia de si como única via de salvação, moldando dessa forma as características da cultura ocidental. Entretanto, busca-se mostrar que essa análise de Foucault remete à articulação da Aufklärung com parresía e que nesse processo o exame de consciência, pelas técnicas de si, pelo governo de si, possibilita a retomada da alteridade do indivíduo, restabelecendo as condições de possibilidade de uma governamentalidade de si e dos outro longe da menoridade cultural presente na modernidade e contemporaneidade. ABSTRACT:This research aims to present an analysis of Michel Foucault's thought on the examination. Is it possible to verify the practice of the examination as a device for producing truth in the Foucaultian disciplinary, biopolitical and self-context? The hypothesis of this research, which aims to be our thesis, is that the examination constitutes a producer of disciplinary, self, and biopolitical truth, even though Foucault made no explicit reference to the examination in the context of the normalizing society. This is due to the requirement production of truth for governmentality to exist. The investigations on the issue begin with Discipline and Punish, which is the only work in which Foucault presents a detailed approach to the examination. However, the philosopher's works that are directly or indirectly linked to the issue of the examination as an operator of the knowledge and power relationship were consulted. In The Will to Know (History of Sexuality I), Foucault establishes the junction point between control by disciplinary truth (of the individual) and control by the truth of normalization (of the population). These are the disciplines of the body and the regulations of the population, which Foucault classified as techniques of disciplinary control, an anatomical-political analysis of the human body, and as regulatory techniques of the biopolitics of the population. In the two works cited above, Foucault makes direct reference to the practice of examination, however, in the works considered biopolitical, In Defense of Society; Security, Territory, Population; Birth of Biopolitics, the philosopher did not refer directly to examination. Given this situation and the requirement for the production of truth in order to exist government in each and every aspect of life, the research aims to demonstrate that examination is present in biopolitical society as much as in disciplinary society. The research addresses the production of truth based on the practices of inquiry and examination, highlighting the prevalence of the latter over the former in the production of truth in the disciplinary-normalizing context. The practice of inquiry reconstructs past data and facts in order to produce truth, a characteristic of feudal society. Even though the knowledge of inquiry was important for the constitution of the State and empirical sciences, it is shown that a new art of governing emerged in the 18th century and inquiry lost its leading role, which was replaced by the practice of examination. Initially, the examination, with its techniques of surveillance, discipline and norms, constituted a disciplinary device for individuals, making them docile and useful; later, with the same control techniques, the examination became a central device in the production of truth for the control of the population. It is the entry of life into history, which is linked to the way in which truth is produced from then on, through examination. This is biopolitical governmentality, characterized by the practice of liberalism/neoliberalism, whose principle is always to complain about the excess of government. The thesis highlights the examination producing truth in the government of oneself, evidenced by Foucault when analyzing the pagan techniques and practices of the self in the culture of Greco-Roman Antiquity. In this sense, Foucault's analysis seeks to understand Christian asceticism by adapting pagan asceticism's examination of conscience to its own interests, stripping individuals of their autonomy and imposing self-renunciation as the only path to salvation, thus shaping the characteristics of Western culture. However, it seeks to show that Foucault's analysis refers to the articulation of Aufklärung with parrhesia and that in this process, the examination of conscience, through techniques of the self, through selfgovernment, enables the reclaiming of the individual's otherness, reestablishing the conditions for a governmentality of self and others far from the cultural minority present in modernity and contemporaneity. |
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