Abstract:
RESUMO: Introdução: a pandemia da Covid-19 foi um problema de alta magnitude para o setor saúde
por exigir a restruturação do atendimento em diferentes contextos e níveis de atenção bem
como, em razão dos elevados indicadores epidemiológicos e das repercussões na saúde
mental. Os profissionais de saúde que atuaram na linha de frente no enfrentamento da
pandemia foram expostos à riscos de contaminação, ficaram vulneráveis ao desenvolvimento
ou à intensificação de comorbidades psicopatológicas como, distúrbios no padrão de sono,
sintomas de ansiedade e de depressão, o que, por consequência, pode ter influenciado para o
aumento do consumo de substâncias psicotrópicas como uma estratégia para obtenção de
sensação de relaxamento, redução dos níveis de ansiedade e depressão e melhoria da
qualidade do sono. Objetivo: avaliar a qualidade do sono e o consumo de psicotrópicos por
profissionais da saúde da linha de frente de cuidados à pacientes com Covid-19. Método:
pesquisa observacional, transversal e analítica, desenvolvida em dois centros referenciais para
o gerenciamento de casos moderados e graves de Covid-19 em Teresina – PI, no período de
janeiro/2022 a maio/2023. A amostra foi constituída por 224 profissionais da saúde, dentre
médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, técnicos e auxiliares de enfermagem, de ambos os
sexos, com carga horária semanal de trabalho igual ou superior a 24 horas e que prestaram
atendimento de no mínimo três meses à pessoas infectadas com o vírus SARS-Cov-2, na
modalidade de internação hospitalar ou terapia intensiva. Para a coleta dos dados foi utilizado
um questionário para caracterização sociodemográfica, ocupacional, clínica, consumo de
psicotrópicos e padrão do sono, elaborado pelos próprios pesquisadores, e o instrumento de
Índice da Qualidade do Sono de Pittsburgh (IQSP). Para a construção do banco de dados foi
utilizado o software da Microsoft Office Excel, sendo as informações transportadas,
posteriormente, para o programa Statistical Package for the Social Sciences (SPSS) versão
26.0. A análise descritiva foi expressa por medidas de posição (média e mediana) e de
variabilidade (desvio padrão, amplitude, máximo e mínimo) para as variáveis quantitativas e
pela frequência absoluta e relativa para as categóricas. Para análise inferencial, foi realizado o
teste de Kolmogorov-Smirnov para análise e verificação da normalidade da amostra. Para
avaliar a associação existente entre as variáveis qualitativas, foi utilizado o teste Qui-
Quadrado (X2
) de Pearson. Em seguida, foi utilizado o teste de comparação U de Mann-
Whitney para as variáveis quantitativas não paramétricas (não normais). Com base na análise
do p-valor dos testes listados, usou-se a regressão logística binária e o teste de WALD. As
variáveis foram inseridas no modelo por meio do método enter, variáveis foram inseridas em
bloco único, considerando significância estatística p<0,05 como critério para inclusão das
variáveis independentes. Foram calculados Odds ratio (OR) com intervalos de confiança de
95%. A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do
Piauí (CEP/UFPI) sob registro 4.122.120. Resultados: os resultados obtidos no estudo foram
apresentados em três manuscritos que evidenciam os principais achados da pesquisa: o
primeiro artigo intitulado: “Preditores da má qualidade do sono em profissionais da saúde:
análise no cenário da Covid-19”, apresenta a ansiedade, dificuldades para dormir, tristeza,
cansaço mental, cansaço físico, estresse, angústia, frustração, alteração no padrão de sono e
sonolência ao longo do dia, como aspectos vinculados a má qualidade do sono desses
profissionais durante a pandemia, trazendo a variável “estado de saúde muito bom antes de
exercer função laboral no setor Covid-19” como fator de proteção; no segundo artigo
intitulado: “Fatores associados ao consumo de psicotrópicos entre profissionais de saúde de
serviços hospitalares na pandemia Covid-19”, é demonstrado que a substância mais
consumida foram os ansiolíticos por 22,5% (n=55) dos participantes, sendo os técnicos de
enfermagem a categoria que apresentou maior consumo dessa e das demais substâncias.
19,2% (n=47) dos profissionais informaram que passaram a consumir substâncias
psicotrópicas após início do trabalho no setor Covid-19; e 15,1% (n=37) utilizavam dessas
substâncias especificamente para dormir. As variáveis “manifestar interesse em buscar ajuda
ou tratamento psicológico, mas não procuraram ajuda” (OR: 5; IC95%: 2,43-10,27, p < 0,000)
e “manifestar interesse e procurar ajuda” (OR: 16,4; IC95%: 7,53-36,01, p < 0,000)
apresentaram associação com o consumo de psicotrópicos entre profissionais de saúde. Já as
variáveis “religião católica” (OR: 0,15; IC95%: 0,04-0,57, p = ,005), “religião evangélica”
(OR: 0,13; IC95%: 0,03-0,59, p = 0,008) e “grau de exigência emocional moderado” (OR:
0,35; IC95%: 0,00-0,27, p < 0,001) foram fatores de proteção; o terceiro “Relação da
qualidade do sono com o consumo de psicotrópicos entre os profissionais de saúde na
pandemia Covid-19” revelou que, as variáveis “já usou, mas não usa atualmente”; “usa
atualmente”; “ter usado antidepressivo”; “ter usado ansiolítico”; “ter usado tranquilizante”;
“ter usado psicotrópicos com prescrição/orientação médica”; “ter usado psicotrópicos com
orientação própria/automedicação”; “ter usado as substâncias em decorrência de depressão”;
“ter usado as substâncias em decorrência de ansiedade”; “ter usado as substâncias em
decorrência de medo de se infectar com a Covid-19”; “ter usado as substâncias em
decorrência de estresse”; “ter usado as substâncias em decorrência de exaustão”; “ter usado as
substâncias em decorrência de cansaço mental”; “ter usado as substâncias em decorrência de
cansaço físico”; “ter feito uso de substâncias para dormir a noite”; “ter feito uso de
substâncias para alívio emocional/sentimental”; “ter feito uso de substâncias em momentos de
crise de ansiedade”; “ter feito uso das substâncias antes de trabalhar no setor da Covid-19” e
“aumento do uso/dose após o início do seu trabalho no setor da Covid-19” foram
independentemente associadas a ter problemas com o sono. Conclusão: a pandemia Covid-19
potencializou diversos transtornos e perturbações já existentes no ambiente laboral dos
profissionais da saúde. Aspectos mentais, físicos, emocionais e até mesmo exercer suas
funções durante a pandemia, foram algumas das situações associadas à má qualidade do sono
e condicionantes ao consumo de substâncias psicotrópicas, como estratégia de manutenção e
equilíbrio desses agravos, o que, denotou a ausência ou escassez de cuidados voltados para
prevenção e manutenção do bem-estar e saúde dos profissionais de saúde durante esse
período.
ABSTRACT: Introduction: the Covid-19 pandemic was a problem of high magnitude for the health sector
as it required the restructuring of care in different contexts and levels of care, as well as due to
the high epidemiological indicators and repercussions on mental health. Health professionals
who worked on the front line in the fight against the pandemic were exposed to the risk of
contamination and were vulnerable to the development or intensification of
psychopathological comorbidities such as disturbances in sleep patterns, symptoms of anxiety
and depression, which, in turn, As a consequence, it may have influenced the increase in the
consumption of psychotropic substances as a strategy to obtain a feeling of relaxation, reduce
levels of anxiety and depression and improve sleep quality. Objective: to evaluate the quality
of sleep and the consumption of psychotropic drugs by healthcare professionals on the front
line of care for patients with Covid-19. Method: observational, cross-sectional and analytical
research, developed in two reference centers for the management of moderate and severe
cases of Covid-19 in Teresina – PI, from January/2022 to May/2023. The sample consisted of
224 health professionals, including doctors, nurses, physiotherapists, technicians and nursing
assistants, of both sexes, with a weekly work schedule equal to or greater than 24 hours and
who provided care for at least three months at a time. people infected with the SARS-Cov-2
virus, in hospital admission or intensive care. To collect data, a questionnaire was used for
sociodemographic, occupational, clinical characterization, consumption of psychotropic drugs
and sleep pattern, prepared by the researchers themselves, and the Pittsburgh Sleep Quality
Index (IQSP) instrument. Microsoft Office Excel software was used to construct the database,
with the information subsequently transported to the Statistical Package for the Social
Sciences (SPSS) version 26.0. The descriptive analysis was expressed by position
measurements (mean and median) and variability (standard deviation, amplitude, maximum
and minimum) for quantitative variables and by absolute and relative frequency for
categorical variables. For inferential analysis, the Kolmogorov-Smirnov test was performed to
analyze and verify the normality of the sample. To evaluate the association between
qualitative variables, Pearson's Chi-Square (X2) test was used. Then, the Mann-Whitney U
comparison test was used for non-parametric (non-normal) quantitative variables. Based on
the analysis of the p-value of the tests listed, binary logistic regression and the WALD test
were used. The variables were inserted into the model using the enter method, variables were
inserted in a single block, considering statistical significance p<0.05 as a criterion for
inclusion of independent variables. Odds ratios (OR) with 95% confidence intervals were
calculated. The research was approved by the Research Ethics Committee of the Federal
University of Piauí (CEP/UFPI) under registration 4.122.120. Results: the results obtained in
the study were presented in three manuscripts that highlight the main findings of the research:
the first article entitled: “Predictors of poor sleep quality in healthcare professionals: analysis
in the Covid-19 scenario”, presents anxiety, difficulties sleeping, sadness, mental tiredness,
physical tiredness, stress, anguish, frustration, changes in sleep patterns and drowsiness
throughout the day, as aspects linked to the poor quality of sleep of these professionals during
the pandemic, bringing the variable “state of very good health before working in the Covid-19
sector” as a protective factor; in the second article entitled: “Factors associated with the
consumption of psychotropic drugs among healthcare professionals working in hospital
services during the Covid-19 pandemic”, it is demonstrated that the most consumed substance
was anxiolytics by 22.5% (n=55) of the participants, with nursing technicians were the
category that showed the highest consumption of this and other substances. 19.2% (n=47) of
professionals reported that they started consuming psychotropic substances after starting work
in the Covid-19 sector; and 15.1% (n=37) used these substances specifically to sleep. The
variables “express interest in seeking help or psychological treatment but did not seek help”
(OR: 5; 95% CI: 2.43-10.27, p < 0.000) and “express interest and seek help” (OR: 16, 4; 95%
CI: 7.53-36.01, p < 0.000) were associated with the consumption of psychotropic drugs
among health professionals. The variables “Catholic religion” (OR: 0.15; 95% CI: 0.04-0.57,
p = .005), “evangelical religion” (OR: 0.13; 95% CI: 0.03-0 .59, p = 0.008) and “moderate
degree of emotional demand” (OR: 0.35; 95%CI: 0.00-0.27, p < 0.001) were protective
factors; the third “Relationship between sleep quality and the consumption of psychotropic
drugs among health professionals in the Covid-19 pandemic” revealed that the variables “have
used, but do not currently use”; “currently use”; “having used antidepressants”; “having used
anxiolytics”; “having used tranquilizers”; “having used psychotropic drugs with medical
prescription/guidance”; “having used psychotropic drugs under their own guidance/self-
medication”; “having used substances as a result of depression”; “having used substances as a
result of anxiety”; “having used the substances due to fear of becoming infected with Covid-
19”; “having used substances as a result of stress”; “having used the substances as a result of
exhaustion”; “having used substances due to mental fatigue”; “having used the substances as a
result of physical fatigue”; “having used substances to sleep at night”; “having used
substances for emotional/sentimental relief”; “having used substances during times of anxiety
crisis”; “having used substances before working in the Covid-19 sector” and “increased
use/dose after starting work in the Covid-19 sector” were independently associated with
having sleep problems. Conclusion: the Covid-19 pandemic increased several disorders and
disruptions that already existed in the work environment of healthcare professionals. Mental,
physical, emotional aspects and even performing their functions during the pandemic were
some of the situations associated with poor sleep quality and conditions for the consumption
of psychotropic substances, as a strategy for maintaining and balancing these problems, which
denoted the absence or lack of care aimed at preventing and maintaining the well-being and
health of healthcare professionals during this period.